A luz da cidade parecia nascer do próprio solo.
Joe permaneceu imóvel.
Durante alguns segundos esqueceu completamente que existia Terra.
Esqueceu Marte.
Esqueceu a estação espacial.
À sua frente estendia-se uma cidade impossível.
Torres translúcidas erguiam-se como árvores gigantes.
Rios de água cristalina atravessavam jardins suspensos.
Pontes curvas uniam construções que pareciam crescer naturalmente da rocha.
Não havia veículos.
Não havia fumaça.
Não havia ruídos.
Mesmo assim...
A cidade estava viva.
Milhares de pessoas caminhavam lentamente pelas ruas.
Nenhuma demonstrava surpresa ao vê-lo.
Era como se todos soubessem que ele chegaria.
A esfera prateada avançou alguns metros.
Depois parou.
Uma voz ecoou novamente.
— Bem-vindo a Kodeshipur.
Joe observou tudo ao redor.
— Este planeta existe de verdade?
— Sim.
— Onde estou?
— Muito além da região do espaço conhecida por sua humanidade.
Joe respirou fundo.
Ainda tentava compreender.
Então percebeu algo estranho.
As pessoas possuíam aparências diferentes.
Algumas lembravam humanos.
Outras apresentavam pequenas diferenças.
Olhos maiores.
Pele azulada.
Cabelos prateados.
Mas todas transmitiam a mesma sensação.
Serenidade.
Um homem aproximou-se lentamente.
Vestia uma túnica branca.
Os cabelos eram completamente grisalhos.
Seu rosto demonstrava idade.
Mas seus olhos pareciam conter milhares de anos.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu sou Elior.
Membro do Conselho dos Anciãos.
Joe respondeu com cautela.
— Vocês são os Observadores?
O homem sorriu discretamente.
— Não.
Somos aqueles que aprenderam com eles.
Joe permaneceu em silêncio.
Aquela resposta apenas aumentava suas dúvidas.
Os dois começaram a caminhar.
Enquanto atravessavam a cidade, Joe percebeu outra coisa.
Nenhuma construção possuía portas fechadas.
Nenhum muro.
Nenhuma arma.
Nenhum soldado.
Era uma civilização completamente diferente.
Ao longe surgiu um enorme edifício circular.
Muito maior que todos os outros.
Seu teto era sustentado por colunas transparentes.
No centro brilhava o mesmo símbolo encontrado na Sala 17.
Mas agora...
Completo.
Quando Joe atravessou a entrada, encontrou doze anciãos sentados em círculo.
Nenhum ocupava posição superior aos demais.
No centro havia apenas uma esfera luminosa.
Ela pulsava lentamente.
Como um coração.
O silêncio dominou o salão.
Até que uma mulher idosa falou.
— Joseph Carter Ferreira.
Você demorou.
Joe franziu a testa.
— Como sabem meu nome?
Outro ancião respondeu.
— Sabemos o nome de todos aqueles que chegam até aqui.
Joe olhou ao redor.
Então fez a pergunta que carregava desde a estação espacial.
— O que aconteceu com Maria?
Nenhum dos anciãos respondeu imediatamente.
Em vez disso...
A esfera no centro do salão começou a brilhar.
Uma imagem surgiu acima dela.
Maria.
Viva.
Conversava tranquilamente com outras pessoas em uma praça daquela mesma cidade.
Logo depois apareceram José.
André.
E dezenas de rostos desconhecidos.
Joe aproximou-se.
— Eles...
Estão vivos?
— Sim.
Responderam quase ao mesmo tempo.
Joe permaneceu imóvel.
Uma emoção inesperada tomou conta dele.
Durante todo aquele tempo...
Eles nunca estiveram mortos.
A mulher voltou a falar.
— Nenhum deles foi sequestrado.
Todos foram convidados.
Joe demorou alguns segundos para entender.
— Convidados?
— Cada civilização recebe oportunidades.
Poucos aceitam.
Joe respirou lentamente.
Então perguntou:
— Então por que eu voltei para a Terra?
O ancião Elior respondeu.
— Porque alguém precisava preparar os demais.
Joe abaixou a cabeça.
Finalmente compreendia por que suas lembranças haviam sido apagadas.
Não era uma punição.
Era proteção.
Outro ancião levantou-se.
Sua voz era firme.
— Agora chegou o momento de conhecer a verdadeira história.
A esfera modificou novamente as imagens.
Desta vez apareceu o Universo.
Milhares de galáxias.
Milhões de mundos.
Depois...
Centenas de cidades semelhantes a Kodeshipur.
Espalhadas pelo cosmos.
— Existem milhares delas.
Cada uma abriga uma espécie que sobreviveu ao Grande Filtro.
Joe nunca ouvira aquela expressão.
— Grande Filtro?
O ancião respondeu.
— O momento em que uma civilização decide destruir a si mesma...
ou aprender a viver como uma só.
O silêncio voltou.
Então Joe fez outra pergunta.
Aquela que mais o assustava.
— A humanidade passou por esse teste?
Os doze anciãos trocaram olhares.
Ninguém respondeu imediatamente.
Até que Elior falou.
— Ainda não.
A esfera tornou a brilhar.
Agora mostrava a Terra.
Os oceanos.
As cidades.
As guerras.
As divisões.
As desigualdades.
Depois...
As esferas prateadas surgindo em silêncio sobre o planeta.
— O despertar não foi uma invasão.
Foi um convite.
Joe observava cada imagem.
Seu coração acelerava.
Então a última pergunta escapou quase sem perceber.
— E os Observadores?
O salão inteiro ficou silencioso.
Os anciãos levantaram-se lentamente.
Pela primeira vez...
Todos demonstravam preocupação.
Elior aproximou-se da esfera.
Sua voz tornou-se grave.
— Durante milhões de anos acreditamos compreender o Universo.
Mas existe uma pergunta...
que nem nós conseguimos responder.
A esfera revelou uma região completamente escura do espaço.
Nenhuma estrela.
Nenhuma galáxia.
Apenas um vazio absoluto.
Então surgiu uma única imagem.
Algo gigantesco.
Impossível de descrever.
Muito maior do que sistemas solares inteiros.
Os anciãos baixaram a cabeça.
— Eles estão chegando.
Joe sentiu um frio percorrer todo o corpo.
— Quem são eles?
Elior respondeu apenas quatro palavras.
— Aqueles que observam todos.
Continua...
Último Capítulo: Capítulo 12 – O Convite
Capítulos anteriores:
Capítulo 10 - A Primeira Cidade
Capítulo 09 - O Contato
Capítulo 08 - Os Desaparecidos
Capítulo 07 - O Despertar dos Observadores
Capítulo 06 - Os Observadores
Capítulo 05 - A Sala 17
Capítulo 04 - O Projeto HELLO
Capítulo 03 - A Jornalista e os Arquivos Secretos
Capítulo 02 - A Mensagem de Marte
Capítulo 01 - O Homem do Banco da Praça

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