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Projeto Escuta: Parte 2 – O Eco da Frequência

O Som das Coisas que Ninguém Ouve

SEGUNDA PARTE

Capítulo Final – O Eco da Frequência

O laboratório permaneceu em absoluto silêncio.

Nenhum equipamento voltou a funcionar.

Nenhuma porta se abriu novamente.

A enorme estrutura circular de aço permanecia imóvel, como se nunca tivesse vibrado.

Mesmo assim, ninguém ousava afirmar que tudo havia terminado.

Benício caminhou lentamente até a fotografia caída sobre o piso.

Augusto.

Helena.

Sofia.

E o espaço vazio.

Por alguns segundos permaneceu observando aquele lugar reservado para alguém que ainda não existia naquela imagem.

Ou talvez...

Que ainda não tivesse chegado.

Guardou cuidadosamente a fotografia dentro da pasta de Augusto.

Helena aproximou-se.

— O que pretende fazer agora?

Benício olhou mais uma vez para a grande porta metálica.

No centro dela, o círculo azul parecia menos ameaçador.

Mais parecido com um convite.

Respirou profundamente.

— Acho que meu avô não queria que abríssemos essa porta.

Helena sorriu discretamente.

— Também acho.

— Mas queria que soubéssemos que ela existe.

Ela concordou.

Durante décadas, muitas pessoas tentaram encontrar respostas naquele laboratório.

Agora compreendiam que algumas perguntas talvez fossem mais importantes do que as respostas.

Nas semanas seguintes, a antiga Unidade Experimental foi cuidadosamente catalogada.

Nenhum equipamento foi removido.

Nenhuma gravação foi divulgada.

Helena criou um arquivo protegido apenas para preservar a história.

O Projeto Escuta continuaria existindo.

Mas com outro propósito.

Não para estudar crianças.

Muito menos para tentar mudá-las.

Agora o objetivo seria aprender com elas.

Porque, afinal, nunca haviam sido pacientes.

Sempre haviam sido professoras.

A rotina voltou lentamente.

Benício retornou ao trabalho na prefeitura.

As manhãs continuavam silenciosas.

O som das luminárias ainda chegava antes das pessoas.

O elevador ainda fazia o mesmo ruído metálico.

O saxofone continuava repousando ao lado da mesa.

Mas havia uma diferença.

Agora ele já não tentava ignorar a Frequência.

Quando ela aparecia...

Apenas escutava.

Sua vida, porém, estava dividida entre dois mundos.

Durante parte do dia dedicava-se ao Projeto Escuta.

Na outra parte...

Era simplesmente pai.

Quase todas as semanas atravessava a cidade para acompanhar o filho na Clínica Multiprofissional NEXGEN.

O prédio chamava atenção pela arquitetura moderna.

Grandes janelas.

Jardins internos.

Salas coloridas.

Ambientes cuidadosamente planejados para reduzir estímulos excessivos.

Ali trabalhavam neurologistas, psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e diversos outros profissionais.

Benício costumava dizer que aquele lugar havia devolvido tranquilidade à família.

Cada pequena conquista era celebrada.

Cada palavra nova.

Cada desafio superado.

Cada sorriso.

Na recepção, todos conheciam Marcus pelo nome.

Também conheciam Benício.

— Boa tarde, senhor Pereira.

A recepcionista sorriu.

— Marcus terminou a terapia ocupacional há poucos minutos.

A terapeuta apareceu logo em seguida.

Carregava uma pequena pasta de desenhos.

— Hoje ele trabalhou muito bem.

Benício sorriu.

— Como foi?

— Muito curioso.

Fez perguntas diferentes.

Desenhou praticamente o tempo inteiro.

Entregou-lhe uma folha.

— Talvez o senhor queira guardar.

Benício agradeceu.

Dobrou cuidadosamente o papel.

Ainda não olhou.

Encontrou Marcus sentado próximo ao jardim.

Usava fones abafadores.

Observava atentamente o movimento das nuvens.

Nem percebeu a chegada do pai.

Benício sentou-se ao seu lado.

Permaneceu alguns segundos em silêncio.

Aprendera que nem toda conversa precisava começar com palavras.

Marcus foi o primeiro a falar.

— Pai...

— Hum?

— Você acredita que existem lugares que chamam as pessoas?

Benício sorriu discretamente.

A pergunta lembrava muito as conversas que tivera com Augusto através das antigas gravações.

— Às vezes acredito.

Marcus continuou olhando para o céu.

— Eu também.

Os dois permaneceram em silêncio.

Depois levantaram-se.

Era hora de voltar para casa.

Já dentro do carro, parado diante de um semáforo, Benício lembrou-se do desenho entregue pela terapeuta.

Abriu a folha.

No centro havia um grande círculo azul.

Muito parecido com os desenhos encontrados no antigo laboratório.

Seu coração acelerou.

Mas havia algo novo.

Ao redor do círculo, Marcus desenhara dezenas de pequenos retângulos alinhados.

Todos iguais.

Como veículos vistos de cima.

Benício virou discretamente a folha.

No verso estava escrito apenas:

"Esperando."

Olhou para o filho.

— Marcus...

O menino continuava olhando pela janela.

— Sim?

Benício mostrou o desenho.

— O que são estes retângulos?

Marcus respondeu naturalmente.

Como quem descrevia algo óbvio.

— São os ônibus.

Benício sorriu.

— Que ônibus?

Marcus permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu sem desviar os olhos da estrada.

— Os que levam as pessoas.

— Levam para onde?

O menino demorou alguns instantes.

Como se tentasse lembrar de um lugar que nunca visitara.

Então respondeu baixinho.

— Ainda não sei...

Fez uma pequena pausa.

— Eles ainda não chegaram.

Naquele exato instante...

Bem ao longe...

Quase imperceptível...

Benício voltou a ouvir a Frequência.

Mas, desta vez...

Ela parecia diferente.

Já não lembrava uma nota musical.

Nem um trem distante.

Parecia o ronco sincronizado de centenas de motores funcionando ao mesmo tempo.

Por um breve segundo, teve a estranha sensação de enxergar uma estrada infinita.

Coberta por dezenas...

Centenas...

Talvez milhares de ônibus viajando exatamente na mesma direção.

Piscou os olhos.

A visão desapareceu.

O semáforo abriu.

Benício acelerou.

Sem perceber, apertou um pouco mais forte o volante.

Marcus continuava olhando pela janela.

Como se ainda escutasse alguma coisa.

Muito distante.

Muito além do céu.

Naquela noite, Helena permaneceu sozinha na Sala Harmonia.

Guardava cuidadosamente os últimos documentos de Augusto.

Antes de apagar as luzes, encontrou um envelope preso entre as páginas do caderno azul.

Não havia destinatário.

Apenas um símbolo.

O círculo azul.

Dentro existia somente uma folha.

Nela, uma única frase escrita à mão.

"Quando o Eco terminar...

começará o Êxodo."

Helena releu aquelas palavras diversas vezes.

Depois fechou lentamente o envelope.

Sem perceber, sorriu.

Porque finalmente compreendia.

O Projeto Escuta nunca fora o destino.

Sempre fora o primeiro passo.

FIM

Continua em...

Projeto Êxodo

Ler também:
PARTE 1 - O CHAMADO

Projeto Escuta: Parte 2 – O Eco da Frequência
Projeto Escuta: 
O Som das Coisas que Ninguém Ouve
Parte 2 – O Eco da Frequência

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