O Banco da Praça
Samuel gostava de chegar cedo à praça.
Não porque tivesse compromisso com alguém.
Na verdade, era justamente o contrário.
Ali, antes que o movimento aumentasse, o mundo parecia respirar mais devagar.
As árvores balançavam com o vento da manhã. Os pássaros disputavam espaço nos galhos mais altos. Algumas pessoas caminhavam sem pressa pelas calçadas. Tudo seguia um ritmo que fazia sentido.
Samuel sentava-se sempre no mesmo banco.
Não era superstição.
Era familiaridade.
Gostava de saber exatamente onde estaria. Gostava de reconhecer os detalhes: a pintura desgastada da madeira, a sombra projetada pela árvore ao lado, o som distante da água da fonte.
Enquanto observava o ambiente, organizava os pensamentos.
Às vezes em silêncio.
Às vezes murmurando frases baixinho.
Quem passava podia imaginar que ele estivesse falando sozinho.
Mas Samuel não estava conversando com ninguém.
Estava colocando as ideias em ordem.
Desde criança, sua mente funcionava como uma biblioteca sem bibliotecário.
Centenas de pensamentos surgiam ao mesmo tempo.
Lembranças.
Projetos.
Perguntas.
Detalhes aparentemente insignificantes.
Tudo misturado.
Falar em voz baixa ajudava a separar as estantes.
Era como etiquetar os livros certos nos lugares certos.
Naquela manhã, observou uma folha seca desprender-se de um galho.
Ela girou no ar durante vários segundos antes de tocar o chão.
A maioria das pessoas não teria prestado atenção.
Samuel ficou fascinado.
Percebeu como o vento mudava sua trajetória a cada instante.
Percebeu a sombra que a folha projetava no concreto.
Percebeu até mesmo o som quase imperceptível quando ela finalmente pousou.
Esses detalhes sempre chamavam sua atenção.
Por muito tempo acreditou que isso fosse um defeito.
Mas, com os anos, começou a enxergar de outra forma.
Talvez algumas pessoas fossem feitas para olhar o horizonte.
Outras para observar o caminho.
Ele pertencia ao segundo grupo.
Enquanto refletia sobre isso, uma criança correu atrás de um pombo próximo ao banco.
O pássaro levantou voo.
A menina riu.
E, por um instante, Samuel também sorriu.
Gostava desses pequenos acontecimentos.
Eles não exigiam conversa.
Não exigiam explicações.
Apenas aconteciam.
Quando o relógio marcou nove horas, a praça começou a ficar mais movimentada.
Samuel levantou-se.
Sentiu que o silêncio que procurava já havia cumprido sua missão.
A mente estava mais leve.
Os pensamentos estavam organizados.
A ansiedade havia diminuído.
Antes de partir, olhou uma última vez para a praça.
Muita gente acreditava que descansar era parar de fazer alguma coisa.
Samuel sabia que não.
Para ele, descansar era encontrar um lugar onde pudesse ser exatamente quem era.
Sem máscaras.
Sem esforço.
Sem precisar explicar nada a ninguém.
E naquele banco simples, sob a sombra da velha árvore, ele encontrava isso com frequência.
Por isso sempre voltava.
Não para fugir do mundo.
Mas para recuperar as energias necessárias para viver nele.



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