"Às vezes, uma única decisão muda o destino de uma pessoa. Outras vezes... muda o destino de uma civilização inteira."
O salão permaneceu em absoluto silêncio.
A gigantesca porta estava completamente aberta.
Do outro lado...
Não havia luz.
Nem escuridão.
Era como observar um espaço onde a própria realidade deixava de existir.
Joe permaneceu imóvel.
Pela primeira vez desde que chegara à Sala 17...
Sentiu medo.
Atrás dele...
As milhares de esferas permaneciam suspensas.
Os Observadores continuavam imóveis.
Nenhum deles possuía rosto.
Nenhum demonstrava qualquer emoção.
A voz voltou a ecoar.
Não era um som.
Era um pensamento.
— A partir deste ponto...
Não existe retorno.
Joe respirou lentamente.
— O que existe do outro lado?
Longos segundos de silêncio.
Então...
— A resposta para a única pergunta que sua espécie nunca soube fazer.
Joe franziu a testa.
— Qual pergunta?
Nova pausa.
— Quem observa os Observadores?
Um arrepio percorreu seu corpo.
Lembrou-se da gigantesca estrutura detectada além da órbita de Plutão.
Aquele enorme olho.
Sentiu que tudo fazia parte da mesma história.
Olhou uma última vez para trás.
Não havia mais escolha.
Deu o primeiro passo.
E atravessou a porta.
Na Terra...
Exatamente no mesmo instante...
Todas as redes elétricas oscilaram.
Durou menos de um segundo.
Relógios digitais atrasaram.
Satélites perderam comunicação.
A internet apresentou pequenas interrupções em diversos países.
Nenhum sistema registrou qualquer causa.
Depois...
Tudo voltou ao normal.
Ou quase.
Durante as quarenta e oito horas seguintes...
O planeta inteiro falava apenas das esferas.
Telejornais.
Redes sociais.
Governos.
Cientistas.
Astrônomos.
Especialistas discutiam sem parar.
Como haviam surgido?
Por que desapareceram?
Quem as havia construído?
As teorias multiplicavam-se.
Mas ninguém fazia a pergunta certa.
Porque ninguém percebera o que realmente acontecera.
Enquanto o mundo observava as esferas...
Algo infinitamente maior havia acontecido.
Milhões de pessoas...
Haviam desaparecido.
Na sede das Nações Unidas...
Uma reunião extraordinária permanecia em andamento.
Nenhuma câmera.
Nenhuma transmissão.
As portas estavam isoladas.
Sobre a enorme mesa digital...
Não apareciam imagens das esferas.
Apenas nomes.
Milhões deles.
Ao lado...
Uma única palavra.
DESAPARECIDO.
O presidente da sessão respirou profundamente.
— Confirmem novamente.
Uma analista respondeu.
— Todos os países concluíram a conferência dos registros.
Ela olhou para os demais.
Ainda parecia incapaz de acreditar.
— A estimativa ultrapassa três milhões de pessoas.
O silêncio tornou-se pesado.
— Ataque biológico?
— Não.
— Terrorismo?
— Não.
— Evacuação clandestina?
— Impossível.
Então um cientista militar falou.
Sua voz mal podia ser ouvida.
— As roupas foram encontradas.
Todos voltaram seus olhares para ele.
— Em todos os casos...
As roupas permaneceram exatamente onde estavam.
Sapatos.
Óculos.
Relógios.
Celulares.
Ferramentas.
Mochilas.
Tudo.
Menos...
As pessoas.
As imagens começaram a chegar do mundo inteiro.
Em uma pequena igreja...
Um pastor encerrava uma oração.
Quando os fiéis abriram os olhos...
O altar estava vazio.
Suas vestes permaneciam dobradas sobre o piso.
Em um hospital...
Uma enfermeira caminhava pelo corredor.
Seu crachá caiu lentamente.
Ela já não estava mais ali.
Em uma comunidade indígena...
Uma anciã contava antigas histórias às crianças.
Sua voz interrompeu-se no meio da frase.
Apenas o colar de sementes permaneceu sobre a terra.
Em uma estação espacial...
Cinco pesquisadores desapareceram.
Suas cadeiras continuavam ocupando exatamente o mesmo lugar.
Os computadores permaneciam ligados.
Canecas de café ainda estavam sobre as mesas.
Como se fossem voltar a qualquer instante.
Mas nunca voltaram.
Nenhum desses casos chegou aos jornais.
Governos ativaram protocolos internacionais.
Imagens de segurança foram confiscadas.
Hospitais.
Delegacias.
Empresas.
Universidades.
Tudo passou imediatamente para classificação máxima.
A orientação era única.
Não provocar pânico.
Enquanto isso...
Joe abriu os olhos.
O lugar onde agora estava não parecia pertencer ao Universo conhecido.
Não havia teto.
Nem chão.
Nem horizonte.
Apenas estruturas gigantescas que pareciam existir em mais dimensões do que sua mente conseguia compreender.
Ao longe...
Milhares de figuras observavam silenciosamente.
Eram diferentes dos Observadores.
Muito maiores.
Muito mais antigas.
A voz voltou.
— Bem-vindo.
Joe tentou responder.
Nenhuma palavra saiu.
— Você atravessou a primeira porta.
Agora...
Pode conhecer a história.
As estruturas ao redor começaram a mudar.
Transformaram-se em imagens.
Joe viu um planeta desconhecido.
Oceanos.
Montanhas.
Cidades monumentais.
Uma civilização extremamente avançada.
Então...
Num único instante...
Milhões desapareceram.
As roupas permaneceram espalhadas pelo solo.
As cidades mergulharam no caos.
A imagem mudou.
Outro planeta.
Outra espécie.
Outro desaparecimento.
Depois outro.
Depois outro.
Centenas.
Milhares.
Sempre o mesmo fenômeno.
Sempre o mesmo silêncio.
Joe respirou profundamente.
— Quantas vezes isso aconteceu?
A resposta veio imediatamente.
— Incontáveis.
— Por quê?
Pela primeira vez...
A voz pareceu hesitar.
— Toda civilização inteligente alcança um momento inevitável.
Joe aguardou.
— Chamamos esse momento de Separação.
— Separação de quê?
Nova pausa.
— Entre aqueles que apenas observam...
E aqueles capazes de compreender.
Joe sentiu um peso no peito.
— Os desaparecidos morreram?
Silêncio.
Longo demais.
Depois...
— Essa pergunta só pode ser respondida por quem atravessar a última porta.
Na Terra...
Maya permanecia diante dos registros enviados pela estação espacial.
Algo continuava errado.
Ela congelou exatamente o instante em que Joe desaparecia da transmissão.
Abriu outro monitor.
Depois outro.
Comparou os registros mundiais.
Satélites.
Centrais elétricas.
Hospitais.
Redes de comunicação.
Samuel aproximou-se.
— Encontrou alguma coisa?
Ela ampliou os gráficos.
Seu rosto empalideceu.
— Meu Deus...
Samuel olhou para a tela.
Levou alguns segundos para compreender.
Então permaneceu imóvel.
Todos os desaparecimentos...
Ocorreram exatamente no mesmo segundo.
No instante em que Joe atravessou a porta.
Não havia margem para erro.
Samuel respirou lentamente.
— Isso não foi um acidente...
Sophia respondeu em voz baixa.
— Foi um evento.
Naquela mesma noite...
Samuel desceu sozinho ao arquivo físico do Projeto HELLO.
Abriu uma antiga caixa metálica.
Dentro dela havia documentos anteriores à era digital.
Relatórios.
Fotografias.
Recortes de jornais.
No fundo da caixa...
Um manuscrito datado de 1947.
Na última página...
Apenas uma frase.
Escrita à mão.
"Eles sempre retornam quando começa a Separação."
Samuel permaneceu imóvel.
A palavra era exatamente a mesma.
Separação.
Como alguém poderia conhecê-la quase oitenta anos antes?
Naquele instante...
Todas as luzes da central oscilaram.
Os computadores ligaram sozinhos.
Uma única mensagem apareceu simultaneamente em todos os monitores.
FASE DOIS INICIADA.
Alguns segundos depois...
Outra frase surgiu lentamente.
OS OBSERVADOS FORAM SEPARADOS.
Ninguém compreendeu seu significado.
Mas Samuel teve uma certeza.
As esferas nunca foram uma invasão.
Os Observadores nunca vieram conquistar a Terra.
Eles apenas aguardavam.
Porque sabiam...
Que este dia chegaria.
E, pela primeira vez na história da humanidade...
A Separação havia começado.
Continua...
Capítulo 9 – O Contato
"Às vezes, o maior mistério não está em quem desapareceu... mas naquilo que todos eles compartilhavam sem jamais perceber."
Capítulos anteriores:Capítulo 7 – O Despertar dos Observadores
Capítulo 6 – Os Observadores
Capítulo 5 – A Sala 17
Capítulo 4 – O Projeto HELLO
Capítulo 3 - A Jornalista e os Arquivos Secretos
Capítulo 2 - A Mensagem de Marte
Capítulo 1 - O Homem do Banco da Praça

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