O ronco do motor ainda ecoava em sua cabeça.
Por um breve instante, teve a certeza de que continuava sentado na janela de um ônibus.
Piscou algumas vezes.
O teto branco do quarto surgiu diante dele.
A cortina balançava suavemente com o vento da manhã, enquanto a luz do sol desenhava faixas douradas sobre a parede.
Estava em casa.
Mas seu coração ainda batia no mesmo ritmo acelerado daquela viagem.
Fechou os olhos por um instante, tentando afastar as imagens.
Não conseguiu.
O sonho permanecia vivo.
No sonho, ele simplesmente estava ali.
Não lembrava de ter embarcado.
Não havia motorista.
Não havia placas indicando o destino.
Havia apenas o movimento constante do ônibus.
E um silêncio absoluto.
Os passageiros permaneciam imóveis.
Ninguém conversava.
Ninguém lia.
Ninguém olhava pela janela.
Era como se todos tivessem aceitado estar ali.
Como se viajar fosse a única coisa que soubessem fazer.
Marcus aproximou o rosto do vidro.
O que viu fez seu corpo inteiro gelar.
À frente, uma fila interminável de ônibus seguia pela estrada.
Atrás deles, outra fila.
Ao lado, mais fileiras ocupavam todas as pistas.
Centenas.
Milhares.
Talvez dezenas de milhares.
Todos exatamente iguais.
Todos mantendo a mesma distância.
Todos avançando na mesma velocidade.
Nenhum acelerava.
Nenhum diminuía.
Nenhum tentava mudar de caminho.
Marcus percebeu algo ainda mais estranho.
Os motores produziam o mesmo som.
Não eram centenas de ruídos diferentes.
Era um único som.
Uma única frequência.
Como se todos os motores respirassem juntos.
Aquela harmonia perfeita era inquietante.
Parecia bonita.
Mas também parecia errada.
Ele levantou-se do banco.
Precisava descobrir para onde estavam indo.
— Para onde este ônibus vai?
Ninguém respondeu.
Olhou para o homem sentado ao seu lado.
Os olhos permaneciam abertos.
Mas não havia vida naquele olhar.
Tentou novamente.
— Vocês estão me ouvindo?
Silêncio.
Então compreendeu o que mais o assustava.
Não era apenas uma viagem.
Era como se todas aquelas pessoas tivessem desistido de escolher o próprio caminho.
Foi nesse instante que despertou.
Marcus respirou fundo.
Ainda conseguia ouvir, em sua memória, o ronco sincronizado dos motores.
Levantou-se da cama e caminhou até sua pequena mesa de estudos.
Desde pequeno, desenhar era a maneira que encontrava para organizar pensamentos que não conseguia explicar.
Pegou uma folha em branco.
Desenhou um ônibus.
Depois outro.
Depois mais outro.
Sem perceber, continuou desenhando até formar uma fila tão longa que desaparecia no horizonte.
No meio de milhares de pequenas janelas, desenhou apenas um rosto.
Um menino olhando para fora.
Assustado.
Era ele.
A porta do quarto abriu-se lentamente.
— Bom dia, campeão.
Benício entrou sorrindo, embora o relógio denunciasse a pressa.
— Vamos? Não podemos nos atrasar para a clínica.
Marcus apenas concordou com a cabeça.
Enquanto guardava os lápis na mochila, Benício aproximou-se da mesa.
O desenho chamou sua atenção.
Reconheceu imediatamente aqueles ônibus.
Na tarde anterior, Marcus havia desenhado algo muito parecido na Clínica NEXGEN.
Na época, pensou que fosse apenas fruto da imaginação.
Agora havia outra folha.
Outro desenho.
A mesma fila.
A mesma sensação de inquietação.
Seu olhar parou no único rosto desenhado.
O medo estampado naquela pequena figura parecia real demais para ser apenas uma brincadeira.
— Você sonhou com isso outra vez? — perguntou, em voz baixa.
Marcus demorou alguns segundos para responder.
— Eles ainda estão viajando.
Benício sentiu um frio percorrer a espinha.
Não perguntou mais nada.
Dobrou cuidadosamente o desenho e o guardou na gaveta da mesa.
Talvez conversassem sobre aquilo mais tarde.
Talvez.
Durante o caminho até a clínica, Marcus permaneceu em silêncio, observando a cidade pela janela do carro.
Cada ônibus que cruzava a avenida fazia seu coração acelerar.
Pareciam comuns.
Eram apenas ônibus levando pessoas ao trabalho, à escola, para casa.
Mas, para ele, havia algo diferente.
Como se todos estivessem seguindo um destino que desconheciam.
Benício percebeu o desconforto do filho, mas preferiu respeitar seu silêncio.
Não imaginava que aquele sonho fosse muito mais do que um pesadelo.
Nem que as palavras encontradas por Helena no antigo laboratório começavam, naquele instante, a ganhar sentido.
Quando o Eco terminar... começará o Êxodo.
E, sem que pai e filho soubessem, o Êxodo já havia começado.

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