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PROJETO ÊXODO: Capítulo 5 - O Acampamento

Quando Marcus viu o lugar pela primeira vez, percebeu que aquilo não parecia um laboratório.

Também não parecia um acampamento.

Era alguma coisa entre os dois.

A porta se fechou atrás deles.

O som da trava ecoou pelo corredor.

Marcus olhou para Helena.

Ela também tinha ouvido.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos.

À frente, dois homens caminhavam sem dizer uma palavra.

Vestiam roupas escuras, sem identificação.

Não pareciam exatamente seguranças.

Mas também não pareciam funcionários comuns.

Marcus olhou para trás.

A porta por onde haviam entrado já estava distante.

— Mãe...

Helena virou o rosto.

— O que foi?

Marcus hesitou.

Aquela frase ainda estava em sua cabeça.

Não confie em quem diz que escolheu você.

Ele não sabia de onde vinha.

Não sabia quem havia dito.

E, principalmente, não sabia se deveria contar.

— Nada.

Helena continuou andando.

— Você está escondendo alguma coisa.

Marcus olhou para ela.

— Como você sabe?

— Porque eu conheço você.

Ele abaixou os olhos.

— Eu também não sei o que está acontecendo.

Helena respirou fundo.

— Então estamos no mesmo lugar.

Marcus olhou novamente para os homens que caminhavam à frente.

— Não acho que estejamos.

O corredor terminou diante de uma grande porta metálica.

Um dos homens aproximou um cartão de um leitor.

Um sinal sonoro.

A porta se abriu.

Marcus esperava encontrar outra sala.

Não encontrou.

Parou.

Helena também.

Do outro lado havia um espaço enorme.

Muito maior do que imaginavam.

Havia árvores.

Ruas pavimentadas.

Pequenos prédios.

Casas.

Um refeitório.

Uma enfermaria.

Um prédio administrativo.

Mais ao fundo, havia construções maiores que Marcus não conseguia identificar.

Tudo estava organizado.

Limpo.

Silencioso.

Parecia uma pequena cidade.

Mas não havia cidade alguma ao redor.

Marcus procurou uma estrada.

Não encontrou.

Procurou carros.

Nada.

Tentou ouvir algum som vindo de fora.

Nada.

Apenas o vento passando pelas árvores.

— Onde estamos? — perguntou Helena.

O homem não respondeu.

Continuou caminhando.

Marcus acompanhou.

Ao lado da estrada havia uma placa.

ACAMPAMENTO

Abaixo, em letras menores:

SETOR RESIDENCIAL

Marcus olhou para Helena.

— Acampamento?

Ela não respondeu.

Alguns metros depois, outra placa.

NEXGEN — ÁREA RESTRITA

Marcus parou.

— Isso é um acampamento?

O homem finalmente olhou para ele.

— É como chamamos.

— E o que é de verdade?

O homem continuou andando.

Marcus ficou alguns segundos parado.

Depois seguiu.

Os outros escolhidos começaram a chegar.

Marcus reconheceu alguns rostos.

Eram as mesmas pessoas que haviam participado do processo de seleção.

Agora estavam todos ali.

Juntos.

Oito pessoas.

Oito escolhidos.

Nenhuma delas parecia saber exatamente o motivo de estar naquele lugar.

Uma mulher observava as casas.

Um homem examinava a cerca.

Outro perguntava quando poderiam voltar para casa.

Ninguém respondia.

Marcus procurou Helena.

Ela estava alguns metros atrás.

Quando se aproximou, percebeu que ela observava tudo com atenção.

— Está procurando alguma coisa? — perguntou Marcus.

— Uma saída.

Ele olhou para a cerca.

— Encontrou?

— Ainda não.

Marcus olhou novamente para o lugar.

A cerca era alta.

Muito alta.

E havia outra além dela.

— Por que duas?

Helena não respondeu.

Uma voz chamou a atenção de todos.

— Sejam bem-vindos.

Uma mulher se aproximava.

Tinha pouco mais de quarenta anos.

Vestia roupas simples.

Não usava uniforme.

Seu sorriso era tranquilo.

— Meu nome é Laura.

Ela olhou para cada um deles.

— A partir de hoje, eu serei responsável por acompanhar vocês durante a permanência no acampamento.

Um dos homens deu um passo à frente.

— Permanência?

— Sim.

— Por quanto tempo?

Laura manteve o sorriso.

— Ainda não sabemos.

— Como assim?

— Depende do desenvolvimento de vocês.

Marcus franziu a testa.

— Desenvolvimento em quê?

Laura olhou para ele.

Por um instante, seu sorriso desapareceu.

— Vocês saberão.

Os quartos ficavam em uma construção baixa, próxima às árvores.

Marcus recebeu o número sete.

Helena, o oito.

Os outros também foram distribuídos.

O quarto de Marcus era simples.

Uma cama.

Um armário.

Uma mesa.

Uma cadeira.

Um banheiro pequeno.

Uma televisão.

Havia roupas novas sobre a cama.

Tamanho exato.

Marcus pegou uma camisa.

Olhou a etiqueta.

Serviria perfeitamente.

Ele olhou para o armário.

Depois para a cama.

Depois para a televisão.

Tudo estava preparado.

Não havia poeira.

Não havia sinais de abandono.

Parecia que alguém havia organizado aquele quarto pouco antes de sua chegada.

Helena apareceu na porta.

— O meu também.

Marcus olhou para ela.

— O que você acha?

Ela entrou.

— Acho que estavam esperando a gente.

Marcus concordou.

— É isso que me incomoda.

Helena passou a mão sobre a mesa.

— Não é só isso.

— O quê?

— Eles sabiam nossos tamanhos.

Marcus ficou em silêncio.

Ela apontou para a roupa.

— Ninguém perguntou.

Marcus olhou novamente para a camisa.

— Talvez tenham conseguido nossos dados.

— Talvez.

Helena olhou para ele.

— Mas quantas coisas eles sabem sobre nós?

Essa pergunta ficou no ar.

Marcus não respondeu.

Uma hora depois, todos foram chamados para uma reunião.

O grupo entrou em uma sala grande.

Havia uma mesa no centro.

Cadeiras ao redor.

Uma tela ocupava quase toda a parede.

Laura estava esperando.

— Antes de começarmos — disse ela —, existem algumas regras.

Um dos escolhidos cruzou os braços.

— Regras?

Laura assentiu.

— Algumas são simples.

Ela começou a explicar.

Não poderiam deixar o setor residencial sem autorização.

Não poderiam entrar nos prédios identificados como áreas restritas.

Deveriam comparecer às atividades programadas.

Deveriam informar qualquer alteração física ou emocional.

Não poderiam tentar atravessar as cercas.

Marcus interrompeu:

— E se alguém quiser ir embora?

Laura olhou para ele.

— Essa decisão não depende de mim.

— De quem depende?

— Da coordenação.

— E quem é a coordenação?

Laura permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Vocês ainda não precisam saber.

Marcus percebeu que aquela resposta começava a se repetir.

Vocês ainda não precisam saber.

Ele olhou ao redor.

Ninguém parecia satisfeito.

Uma das mulheres levantou a mão.

— Nós fomos trazidos para cá contra a nossa vontade?

Laura respirou fundo.

— Vocês foram selecionados.

— Isso não responde à pergunta.

Laura não respondeu.

O silêncio respondeu por ela.

Naquela tarde, os escolhidos conheceram o restante do acampamento.

Havia uma biblioteca.

Uma sala de estudos.

Uma academia.

Um espaço para atividades físicas.

Uma área de convivência.

Até mesmo uma pequena praça.

Tudo parecia cuidadosamente planejado.

Não havia luxo.

Mas também não faltava nada.

Marcus começou a perceber um padrão.

O acampamento não parecia uma prisão.

Esse era justamente o problema.

Era confortável demais para parecer uma prisão.

Mas controlado demais para parecer liberdade.

Ele parou diante de uma janela.

Do lado de fora, a cerca permanecia imóvel.

Um dos escolhidos se aproximou.

— Você também percebeu?

Marcus olhou para ele.

— O quê?

— Eles não precisam manter a gente preso.

Marcus ficou em silêncio.

— Por quê? — perguntou.

O homem apontou para o lugar.

— Porque fizeram tudo para a gente não querer sair.

Marcus observou as casas.

O refeitório.

A biblioteca.

As árvores.

Depois olhou para a cerca.

Talvez ele tivesse razão.

No final da tarde, receberam uma avaliação.

Não era um teste tradicional.

Não havia provas escritas.

Cada pessoa recebeu uma sequência diferente de tarefas.

Memória.

Raciocínio.

Criatividade.

Resolução de problemas.

Tomada de decisão.

Marcus percebeu que as atividades pareciam simples.

Mas não eram.

Havia sempre alguma coisa escondida.

Uma escolha.

Uma variável.

Uma situação inesperada.

Ele começou a perceber que não estavam avaliando apenas se alguém conseguia encontrar a resposta.

Estavam observando como cada pessoa chegava até ela.

Quando terminou, Marcus saiu da sala.

Helena estava esperando.

— Como foi?

— Estranho.

— O meu também.

— O que perguntaram?

— Não posso contar.

Marcus olhou para ela.

— Por quê?

— Pediram para não comentar.

Ele sorriu.

— Então você obedeceu.

— Só dessa vez.

Os dois começaram a caminhar.

— Marcus.

— O quê?

— Você percebeu que eles estão avaliando a gente o tempo todo?

Ele olhou para ela.

— Percebi.

— Até quando não estamos fazendo os testes.

Marcus parou.

— Como você sabe?

Helena apontou para o corredor.

Havia uma pequena câmera no teto.

Depois outra.

E outra.

Marcus começou a olhar ao redor.

Agora que havia percebido uma, começou a encontrar várias.

— Quantas existem?

Helena respondeu:

— Essa é a pergunta errada.

— Qual é a certa?

Ela olhou para ele.

— O que eles estão procurando?

À noite, os oito se reuniram no refeitório.

Dessa vez, ninguém precisava ser chamado.

Todos chegaram juntos.

Talvez porque conversar fosse a única forma de tentar entender o que estava acontecendo.

Uma das mulheres perguntou:

— Alguém sabe onde estamos?

Ninguém respondeu.

Outro disse:

— Eu tentei perguntar para um funcionário.

— E?

— Disseram que não podiam informar.

Marcus olhou para Helena.

Ela estava quieta.

— Pelo menos sabemos uma coisa — disse Marcus.

Todos olharam para ele.

— O quê?

— O nome do projeto.

O ambiente ficou silencioso.

Projeto Êxodo.

O nome ainda parecia estranho.

Um dos homens perguntou:

— Alguém sabe o que significa?

Ninguém sabia.

Marcus pensou por alguns segundos.

Êxodo.

A palavra significava saída.

Partida.

Uma fuga.

Mas por que chamar aquele projeto de Êxodo?

Se estavam sendo levados para um lugar isolado, o nome parecia não fazer sentido.

A menos que o acampamento não fosse o destino.

Marcus levantou os olhos.

Talvez fosse apenas o começo.

Depois do jantar, os escolhidos foram dispensados.

Marcus caminhou lentamente até seu quarto.

Parou diante da porta.

Olhou para o corredor.

Tudo estava silencioso.

Ele entrou.

Sentou-se na cama.

Por alguns minutos, ficou olhando para o teto.

Então percebeu que havia alguma coisa sobre a mesa.

Um pequeno envelope.

Sem identificação.

Marcus pegou.

Dentro havia apenas uma folha.

Nenhuma assinatura.

Nenhuma explicação.

Apenas uma frase:

VOCÊ NÃO FOI ESCOLHIDO PELO MESMO MOTIVO QUE OS OUTROS.

Marcus leu novamente.

Depois uma terceira vez.

Sentiu o coração acelerar.

Olhou para a porta.

Ninguém estava ali.

Ele dobrou o papel.

Guardou no bolso.

Naquele momento, alguém bateu.

Marcus congelou.

— Quem é?

Silêncio.

Ele se aproximou da porta.

— Quem está aí?

Nada.

Marcus abriu.

O corredor estava vazio.

Mas, no chão, havia outro envelope.

Ele se abaixou.

Pegou.

Abriu.

Dessa vez havia apenas uma frase:

DESCUBRA ANTES QUE ELES DESCUBRAM.

Marcus levantou os olhos.

No final do corredor, uma câmera girou lentamente em sua direção.

Ele ficou parado.

Agora tinha certeza.

Não estava apenas sendo observado.

Alguém estava tentando ajudá-lo.

Ou fazê-lo acreditar que estava.

Marcus fechou a porta.

Encostou-se nela.

Do outro lado, o acampamento permanecia em silêncio.

Pela primeira vez desde que chegara, ele entendeu que a pergunta não era mais apenas por que eles haviam sido escolhidos.

A pergunta era outra.

Por que ele havia sido escolhido de maneira diferente?

E, antes que pudesse encontrar a resposta, as luzes do acampamento se apagaram.

Todas ao mesmo tempo.

Continua...

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Capítulo 5 — O Acampamento

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