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PROJETO ÊXODO: Capítulo 4 - Os Escolhidos

A porta se abriu.

Marcus levantou a cabeça.

Dois homens estavam parados no corredor.

Eram os mesmos que haviam conduzido os dois até aquela sala.

— A avaliação terminou — disse um deles.

Marcus olhou para a tela.

Ela continuava apagada.

Mesmo assim, as últimas palavras ainda estavam em sua cabeça.

OBJETIVO: IDENTIFICAR A ORIGEM DA FREQUÊNCIA.

NÃO HÁ GARANTIA DE QUE A ORIGEM SEJA HUMANA.

Ele olhou para Helena.

Ela parecia tão confusa quanto ele.

— Podemos ir embora? — perguntou Marcus.

Um dos homens demorou alguns segundos para responder.

— Precisamos acompanhá-los.

— Para onde?

— Para outra sala.

Marcus franziu a testa.

— Por quê?

— O procedimento ainda não terminou.

Marcus olhou novamente para a porta.

— Vocês disseram que a avaliação terminou.

— A avaliação desta etapa.

Marcus ficou em silêncio.

— Então existem outras etapas?

O homem não respondeu.

Marcus percebeu que não conseguiria arrancar mais nenhuma informação.

Helena tocou seu braço.

— Vamos.

Os dois saíram.

O corredor parecia ainda mais silencioso do que antes.

Marcus caminhava ao lado da mãe, mas sua cabeça continuava presa ao que havia visto.

A estrada.

O ônibus.

A fila.

A porta.

A silhueta.

E aquela frequência.

Aquela coisa que ninguém parecia conseguir explicar.

Depois de alguns metros, Marcus percebeu que estavam entrando em uma parte diferente da unidade.

Havia várias portas.

Algumas tinham pequenas janelas.

Outras eram completamente fechadas.

De uma delas vinha o som de alguém chorando.

Em outra, uma mulher discutia com um funcionário.

Marcus olhou para os homens.

— Onde estamos?

Nenhum deles respondeu.

Continuaram andando.

Até chegarem a uma sala maior.

A porta se abriu.

Marcus parou.

Havia dezenas de pessoas lá dentro.

Algumas estavam sentadas.

Outras permaneciam de pé.

Um homem caminhava de um lado para o outro.

Uma mulher segurava os próprios braços com força.

Um rapaz permanecia em silêncio, observando tudo.

Marcus olhou para aquelas pessoas e percebeu imediatamente que havia algo em comum entre elas.

Vinham de lugares diferentes.

Tinham idades diferentes.

Profissões diferentes.

Mas todas carregavam a mesma expressão.

A expressão de quem não sabia como havia chegado ali.

— Quem são essas pessoas? — perguntou Helena.

Um dos funcionários respondeu:

— Participantes da avaliação.

Marcus olhou novamente para a sala.

— Quantos?

— Trinta e seis.

Ele fez uma conta rápida.

— Trinta e seis de mil duzentos e quarenta e sete?

O funcionário não respondeu.

Marcus entendeu.

Havia acertado.

Um homem se aproximou.

Parecia nervoso.

— Você também sonha com a estrada?

Marcus olhou para ele.

— Sim.

O homem respirou fundo.

— Eu também.

Outra mulher levantou a cabeça.

— E o ônibus?

Marcus assentiu.

— Também.

Ela olhou para as outras pessoas.

— Então é verdade.

Helena se aproximou.

— O quê?

A mulher hesitou.

— Que não somos os únicos.

Ninguém respondeu.

Por alguns segundos, a sala ficou completamente silenciosa.

Então uma porta se abriu.

Um homem entrou.

Vestia um terno escuro.

Não carregava tablet.

Não usava crachá.

Parecia mais um executivo do que alguém que trabalhava em uma instalação como aquela.

Ele caminhou até o centro da sala.

— Meu nome é Elias.

Ninguém respondeu.

Elias observou o grupo.

— Imagino que todos estejam tentando entender por que estão aqui.

Um homem levantou a voz.

— Eu quero voltar para casa.

Elias olhou para ele.

— Todos querem.

— Então deixe-nos ir.

Elias não respondeu.

Caminhou até uma tela na parede.

Ela se acendeu.

A primeira informação apareceu.

PROJETO ESCUTA

Marcus sentiu um arrepio.

A tela mudou.

1.247 SUJEITOS IDENTIFICADOS

Algumas pessoas começaram a conversar.

Elias levantou a mão.

O grupo ficou em silêncio.

— O número que estão vendo representa pessoas identificadas em diferentes partes do mundo que apresentaram algum tipo de relação com o fenômeno estudado pelo Projeto Escuta.

Marcus observou os rostos ao redor.

— Então todos nós fazemos parte desses mil duzentos e quarenta e sete?

— Sim.

— E os outros?

— Continuam sendo acompanhados.

Uma mulher perguntou:

— Por quê?

Elias respondeu:

— Porque nem todos apresentam o mesmo nível de resposta.

A tela mudou.

Gráficos apareceram.

Ondas.

Padrões.

Registros cerebrais.

— Algumas pessoas apenas relatam sonhos.

Outra imagem apareceu.

— Algumas apresentam alterações perceptivas.

Mais uma.

— E algumas respondem à frequência.

Marcus sentiu um arrepio.

— Como eu.

Elias olhou diretamente para ele.

— Sim.

Marcus ficou imóvel.

— Vocês já sabiam.

— Sim.

— Desde quando?

— Desde antes de você chegar aqui.

Marcus sentiu a irritação crescer.

— Então por que fizeram aquela avaliação?

Elias respondeu com calma:

— Para confirmar.

— Confirmar o quê?

— Que você consegue ouvir.

Marcus olhou para Helena.

Ela também parecia surpresa.

— E quantas pessoas conseguem?

— Ainda não sabemos.

— Mas são poucas?

Elias fez uma pequena pausa.

— Muito poucas.

Um homem sentado no fundo da sala levantou a mão.

— Eu ouvi.

Elias olhou para ele.

— Quando?

— Ontem.

Uma mulher falou:

— Eu ouvi durante o sonho.

Outro homem completou:

— Eu ouvi acordado.

Marcus percebeu que as pessoas começaram a trocar olhares.

Então Elias disse:

— É exatamente por isso que vocês estão aqui.

A tela mudou.

Dessa vez, apareceram três palavras.

SONHADORES

PERCEPTORES

OUVINTES

Marcus leu em voz baixa:

— Ouvintes.

Elias assentiu.

— São apenas classificações provisórias.

— E eu sou um?

— Seu caso está confirmado como resposta auditiva.

Marcus respirou fundo.

Tudo aquilo era difícil de aceitar.

Até poucas horas atrás, aquela história parecia apenas um sonho estranho.

Agora havia uma empresa inteira estudando aquilo.

E o pior:

não era apenas ele.

Havia centenas de outras pessoas.

Talvez milhares.

— Então o Projeto Escuta descobriu quem consegue ouvir a frequência.

— Em parte.

— E agora?

Elias mudou a tela.

A palavra SELEÇÃO apareceu.

Marcus ficou olhando.

— Seleção para quê?

— Para a próxima etapa.

— Que etapa?

— Ainda não posso explicar.

Marcus soltou uma pequena risada.

— Vocês sempre dizem isso.

Elias não reagiu.

— O Projeto Escuta não tinha apenas o objetivo de encontrar a origem da frequência.

Marcus voltou a olhar para ele.

— Então qual era o outro objetivo?

Elias caminhou lentamente pela sala.

— Descobrir quem seria capaz de responder a ela.

A sala ficou em silêncio.

Marcus pensou por alguns segundos.

— E depois vocês escolhem essas pessoas.

— Sim.

— Por quê?

Elias apontou para a tela.

Começaram a aparecer informações pessoais.

Formação.

Experiência profissional.

Habilidades.

Testes cognitivos.

Histórico acadêmico.

Capacidade de resolução de problemas.

Criatividade.

Adaptação.

Marcus reconheceu alguns nomes.

Depois percebeu que algumas das informações eram sobre ele.

— Vocês estudaram nossas vidas.

— Analisamos informações disponíveis.

Marcus continuou olhando para a tela.

— Algumas dessas informações não são públicas.

Elias não respondeu.

Marcus voltou a observar os perfis.

— Médico.

Um perfil apareceu.

— Engenheiro.

Outro.

— Programador.

Mais um.

— Pesquisadora.

— Professora.

— Piloto.

Helena acompanhava tudo em silêncio.

— Vocês estão escolhendo profissionais? — perguntou ela.

— Não exatamente.

— Então o que estão escolhendo?

Elias respondeu:

— Potencial.

Marcus franziu a testa.

— Potencial profissional?

— Também.

— Então por que não simplesmente contratar essas pessoas?

Elias ficou alguns segundos em silêncio.

— Porque não estamos procurando apenas aquilo que elas sabem fazer.

A tela mudou.

ADAPTAÇÃO

CRIATIVIDADE

PERCEPÇÃO

RESILIÊNCIA

CAPACIDADE DE APRENDIZAGEM

RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS

AUTONOMIA

Marcus ficou olhando para a última palavra.

Autonomia.

Aquilo chamou sua atenção.

— Vocês querem pessoas independentes?

Elias respondeu:

— Queremos pessoas capazes de tomar decisões quando não existem respostas prontas.

Marcus pensou.

Aquilo parecia muito mais do que uma seleção profissional.

Parecia preparação.

— Preparadas para quê?

Elias não respondeu.

Marcus insistiu:

— Para quê precisamos ser capazes de fazer tudo isso?

— Porque a próxima etapa exigirá pessoas preparadas.

— Preparadas para quê?

Elias apenas repetiu:

— Ainda não posso explicar.

Marcus respirou fundo.

Helena percebeu sua irritação.

— Marcus...

Ele fez um pequeno gesto, mostrando que estava bem.

Mas não estava.

A tela mudou novamente.

Agora apareciam oito nomes.

Marcus reconheceu o próprio.

MARCUS BENÍCIO PEREIRA

Abaixo do nome havia vários dados.

RESPOSTA AO FENÔMENO: CONFIRMADA

PADRÃO DE SONHO: RECORRENTE

PERCEPÇÃO: ELEVADA

CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO: ELEVADA

CLASSIFICAÇÃO: ESPECIAL

Marcus se aproximou da tela.

— O que significa classificação especial?

Elias não respondeu.

— Por que o meu é diferente?

— Porque seu caso apresenta algumas características incomuns.

— Quais?

— Ainda estamos analisando.

Marcus olhou para Helena.

— Eles não sabem.

Elias corrigiu:

— Sabemos algumas coisas.

Marcus voltou-se para ele.

— Mas não sabem tudo.

— Não.

Aquilo trouxe uma sensação estranha.

Era quase reconfortante descobrir que a NEXGEN não tinha todas as respostas.

Mas também era assustador.

Se uma empresa daquele tamanho não compreendia completamente o que estava acontecendo, quem compreenderia?

Elias continuou:

— Vocês oito apresentaram os maiores índices de compatibilidade com a próxima etapa.

Marcus olhou ao redor.

A médica.

O programador.

A pesquisadora.

O piloto.

A professora.

A jovem que permanecera em silêncio.

O homem que havia dito ouvir a frequência.

E ele.

— E os outros? — perguntou Marcus.

— Continuarão sendo avaliados.

— E se não forem considerados compatíveis?

Elias respondeu:

— Cada caso será analisado individualmente.

— Isso não é uma resposta.

Elias o encarou.

— É a única resposta que posso dar.

Marcus não gostou.

Mas percebeu que não conseguiria avançar naquela conversa.

Então Elias olhou para os oito escolhidos.

— Vocês precisam compreender uma coisa.

Todos prestaram atenção.

— Não foram escolhidos por acaso.

A frase ficou no ar.

— Vocês foram selecionados porque possuem características que consideramos importantes para a próxima etapa.

Marcus perguntou:

— E se não quisermos participar?

Elias permaneceu em silêncio.

Helena apertou a mão de Marcus.

Ninguém precisou responder.

O silêncio já dizia bastante.

Marcus percebeu que aquilo não parecia uma escolha.

Pelo menos não naquele momento.

Elias fez um gesto.

As portas se abriram.

Funcionários começaram a entrar.

— Vocês serão conduzidos para seus alojamentos.

Marcus franziu a testa.

— Alojamentos?

Até aquele momento, ninguém havia falado sobre isso.

— Quanto tempo vamos ficar aqui?

— Depende.

— De quê?

— Do resultado da próxima avaliação.

Marcus olhou para Helena.

Ela parecia preocupada.

Os oito começaram a sair.

Marcus foi um dos últimos.

Quando passou por Elias, parou.

— Posso fazer uma pergunta?

— Sim.

— Qual é o nome dessa próxima etapa?

Elias olhou para ele.

Por um instante, pareceu pensar se deveria responder.

Então disse:

— Êxodo.

Marcus parou.

— Êxodo?

— Sim.

— O que significa?

Elias apenas abriu a porta.

— Você descobrirá.

Marcus continuou andando.

No corredor, Helena o alcançou.

— O que ele disse?

Marcus olhou para ela.

— Êxodo.

Ela ficou pensativa.

— Êxodo...

— Você sabe o que significa?

— Sei.

— E o que você acha que significa aqui?

Helena não respondeu.

Os dois continuaram caminhando.

Passaram por outra porta.

Depois outra.

Até chegarem a uma área completamente diferente da instalação.

Havia camas.

Armários.

Mesas.

Uma pequena janela.

Parecia um alojamento.

Marcus entrou.

Olhou ao redor.

— Pelo menos não é uma cela.

Helena tentou sorrir.

— Ainda.

Marcus olhou para ela.

— Mãe...

— Foi só uma brincadeira.

Ele não sorriu.

Helena se aproximou.

— Vai ficar tudo bem.

Marcus olhou para a pequena janela.

Do lado de fora, não havia cidade.

Não havia trânsito.

Não havia prédios.

Apenas uma área extensa cercada por árvores.

E, muito distante, uma montanha.

Marcus ficou observando.

— Onde estamos?

Helena aproximou-se da janela.

— Não sei.

Marcus continuou olhando.

Alguma coisa naquela paisagem parecia familiar.

A estrada.

A montanha.

Aquela sensação.

Ele fechou os olhos.

Por um instante, viu a mesma paisagem em seu sonho.

Abriu os olhos rapidamente.

— Mãe.

— O quê?

— Eu já vi esse lugar.

Helena ficou séria.

— No sonho?

Marcus assentiu.

— Acho que sim.

Antes que pudesse explicar melhor, um som surgiu no corredor.

Um aviso eletrônico.

Depois uma voz.

— Sujeitos selecionados, permaneçam em seus alojamentos.

Marcus olhou para a porta.

Ela se fechou automaticamente.

Um pequeno sinal vermelho apareceu acima dela.

BLOQUEADO.

Helena respirou fundo.

Marcus voltou a olhar pela janela.

Foi então que percebeu algo.

No vidro, refletida atrás dele, havia uma pessoa parada.

Marcus virou-se.

Não havia ninguém.

Apenas Helena.

— O que foi? — perguntou ela.

Marcus continuou olhando para o espaço vazio.

— Nada.

Mas não era nada.

Ele tinha visto a mesma silhueta novamente.

Aquela que aparecera no sonho.

Aquela que estava diante da porta.

E, pela primeira vez, começou a pensar que talvez aquilo não fosse apenas um sonho.

Talvez fosse uma lembrança.

Ou um aviso.

Ou alguma coisa que ele ainda não conseguia compreender.

As luzes do corredor começaram a se apagar.

Uma após outra.

Até que tudo ficou escuro.

Marcus ouviu novamente a frequência.

Baixa.

Distante.

Quase como um chamado.

Então uma voz surgiu no silêncio.

Não vinha dos alto-falantes.

Não vinha do corredor.

Vinha de dentro dele.

Não confie neles.

Marcus abriu os olhos.

Helena continuava ao seu lado.

— Você ouviu?

Ela balançou a cabeça.

— Não.

Marcus ficou em silêncio.

A frequência desapareceu.

Ele olhou para a porta bloqueada.

Depois para a janela.

E percebeu que o verdadeiro mistério já não era descobrir por que a NEXGEN havia escolhido aquelas pessoas.

A pergunta agora era outra.

Quem havia escolhido a NEXGEN para encontrá-las?

E, sem que Marcus soubesse, naquela mesma noite, os oito escolhidos seriam levados para um lugar que não aparecia em nenhum mapa.

Um lugar que a NEXGEN chamava simplesmente de:

O ACAMPAMENTO.

Continua...

Capítulo 5 — O Acampamento


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